quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Do desmame ao sujeito..."

Relato de amamentação e desmame natural de uma criança com síndrome de down


Se algo verdadeiramente me preocupou no nascimento de Maitê, foi a possibilidade de não poder amamenta-la ou enfrentar muitas dificuldades. Há uma vasta literatura relatando o impacto da hipotonia no sucesso da amamentação de um bebê com síndrome de down.
Essa inquietação se agravou quando ela precisou da tenda de oxigênio e as primeiras horas foram passando sem perspectiva que dali saísse. Foram 13 dias de ordenha e muito esforço para o estresse não impactar a produção.
Após 13 dias, quando sua frequência respiratória estabilizou, a expectativa era grande com a pega e sucção. Afinal, lembrava perfeitamente, e a todo momento, da relação entre o tempo e a perda do reflexo de sucção.
O primeiro encontro foi, assim, permeado de ansiedade. A primeira mamada também foi o primeiro colo. Maitê escolheu dormir. Frio, cócegas... nada!
Voltei para casa e fui buscar relatos de experiências de amamentação de bebês com síndrome de down. Encontrei poucos (não me lembro quantos), mas me deparei com relatos de relactação e uma dica para segurar o bebê com SD.
Retornei para o hospital munida de informação e estimulada pelo desafio que me estava sendo imposto pelos acontecimentos da vida. Não ia desistir! Nem ela porque a obstinação é uma das suas características. Demoramos uns 2 dias para acertarmos posição, horário e, como havia sido com Bady, Maitê estava mamando!
Daí em diante, muitas preocupações se foram e muitas certezas vieram. Para ela, fluiu aceitação e amor. Fluiu também desejo de que ela saísse dali (UTI Neonatal) e a certeza que coisas boas aconteceriam.
Após 2 anos e 4 meses, completamos nesta semana 1 mês de desmame natural. Sentindo-se segura, cessou o corpo-a-corpo das mamadas. A mim coube acatar seu desejo e dar-lhe passagem!
Duas suposições psicanalíticas não me saem da cabeça:  o corpo-a-corpo precisa cessar, dando lugar às sublimações fonatórias; “Do desmame ao sujeito” (título do livro de Telma Queiroz, 2005).

Minha pequena contadora de histórias...  Quem viver verá seu lindo voo!

P.S.: esse é um testemunho que só faz sentido porque pretende incentivar a amamentação de bebês com síndrome de down. É possível!!

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