terça-feira, 24 de março de 2015

21 de março: o contraditório de uma comemoração

Bady (7 anos) e Maitê (4 meses)
A minha timeline de ontem me lembrou demais o título do livro de Sawaia (psicóloga social) “As Artimanhas da Exclusão” (com ênfase na palavra “artimanhas”).
Com a intenção de combater o preconceito e defender a inclusão da criança com síndrome de Down, as campanhas, ao contrário, reforçam o discurso da exclusão na medida em que os argumentos se baseiam em frases (retiradas de banner, reportagem da TV e demais manifestações) tais como “portadores de síndrome de down”, “criança down”, “ser down”, “especial”, “cromossoma do amor”, “amar é descobrir que a diferença do próximo faz parte do perfeito mosaico humano” etc. Sem falar dos atributos que remetem ao estereótipo da idiotia: “são sublimes”, “são amorosos”, “estão sempre alegres”, “são especiais”, "são anjos" etc.
Há ainda a narrativa que coloca o nascimento de um filho com síndrome de down como uma intervenção divina para fazer dos seus pais pessoas melhores. Vale lembrar que, quando um homem e uma mulher se entregam à maternidade e à paternidade, esta experiência modifica seus modos de verem o mundo. Cada uma destas experiências, com suas singularidades, irão criar novos modos de ser e estar no mundo. Indo mais além: todo evento que rompe com o curso ordinário da vida produz este efeito: precisamos reinventar-nos.
Todo este cenário aponta, como argumenta o livro citado, para  práticas de exclusão que só podem ser retificadas quando se evita mascarar esta realidade com eufemismos (e ufanismo) ou com a naturalização de atributos.
Maitê na fisioterapia (5 meses)
O mundo está repleto de condições de vida diferentes. São formas particulares de interpretar a realidade, de participar das interações humanas criadoras de sentido que, pela força de certa racionalidade calcada no binômio normal-patológico, encontram dificuldades e obstáculos à sua existência.
Como falou Morgan Freeman quando, ao recusar a necessidade da existência do “dia da consciência negra”, foi interpelado com a pergunta “como faremos para acabar com o preconceito”: “pare de me chamar de homem negro e eu paro de te chamar de homem branco”. Paremos de usar adjetivos como “especial” ou de tomar a condição genética como definidora do que a pessoa é.
Historicamente, sabemos que, nestes casos, o adjetivo sobrepõe-se ao que é compartilhado. Em ambos os casos, o da pessoa com síndrome de down ou do negro, os adjetivos – que constroem os estereótipos, mantém o preconceito e opera a exclusão –se sobrepõem àquilo que compartilhamos e que, de fato, é sublime: o fato de sermos humanos.
p.s.: em relação à palavra deficiência, não existe deficiência. Só diferença. A deficiência é atributo do discurso da normalidade. O normal é o mais frequente. Apenas isto. Neste contexto, a exclusão existe porque o mundo é feito por e para o que é mais comum, o mais frequente.

* Texto publicado no Facebook em 22 de março de 2014.

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