quinta-feira, 19 de agosto de 2010

CIBERCULTURA E TRANSIÇÃO DESENVOLVIMENTAL: TORNAR-SE MÃE

Adalene Torres Barreto Sales** (Instituto de Psicologia, Universidade Federal da Bahia), Denise Maria Barreto Coutinho (Universidade Federal da Bahia), Ana Cecília de Sousa Bittencourt Bastos (Universidade Federal da Bahia).

Um rápido olhar sobre a contemporaneidade faz ver que as novas tecnologias da informação e comunicação estão tão imbricadas no nosso cotidiano, que é impossível imaginar atividades diárias sem suportes midiáticos (CDs, internet, telefones móveis, TV). Dentre essas tecnologias, a Internet parece ser a mais revolucionária em termos de dissolução de fronteiras e integração global nos variados aspectos da vida sociocultural e econômica de indivíduos e grupos. Mundialmente, há cerca de 1,8 bilhões de internautas. A cada minuto, 500 mil pessoas estão se conectando pela primeira vez em todo o mundo. A Internet já é o terceiro meio de comunicação do Brasil, sendo que, em dezembro de 2009, o país contava com 67,5 milhões de internautas. Na medida em que privilegia o conteúdo gerado por usuários em interação, a Internet desempenha importante papel na construção de significados e símbolos a partir dos quais o sujeito expressa seus sentimentos e elabora julgamentos. Vale notar que essa construção nas redes sociais virtuais se configura a partir de trocas simbólicas entre sujeitos que não se conhecem pessoalmente e da interação destes com conteúdos disponibilizados. A natureza e as dimensões atuais da Internet sugerem que parte significativa das atividades de construção de significados se dá na interação realidade virtual-sujeito-realidade concreta. O sujeito contemporâneo transita intensamente entre realidades, trocando palavras, transformando suas crenças e transformando-se, forjando novas identidades e formas de ser no mundo. Partindo dessas considerações, este estudo utiliza a abordagem autoetnográfica para discutir e descrever como é tornar-se mãe nesse lugar de sujeito que transita entre significados produzidos e compartilhados virtualmente e aqueles produzidos e compartilhados na interação face-a-face, tendo como referencial teórico o conceito de Recurso Simbólicos nas Transições Desenvolvimentais. Segundo esse referencial, o recurso simbólico auxilia o sujeito a se ajustar à nova situação, oferecendo-se como suporte para significação dessa nova experiência que lhe tirou o “chão”, possibilitando a recuperação de certa continuidade de si e do mundo, perdida em momentos de ruptura que antecedem a transição desenvolvimental. Tomamos, assim, a própria experiência de uma das autoras na transição para maternidade como uma lente que permite descrever como significados culturalmente compartilhados e construídos no contexto da comunidade virtual Pediatria Radical são incorporados no processo de tornar-se mãe. A análise da autonarrativa de uma das autoras sobre sua transição para a maternidade e inserção na Pediatria Radical, bem como dos diálogos dessa comunidade, nos indica que o fórum é um campo de intensa negociação entre significados pessoais e significados compartilhados, muitas vezes contraditórios, o que impele os sujeitos a se engajarem num intenso processo de construção de novos significados ou significação de experiências. A construção de novos significados sobre si e sobre o mundo permite melhor ajuste ao contexto social, ao mesmo tempo em que devolve o senso de continuidade de si. Tais resultados prévios corroboram o que vem sendo produzido a respeito da utilização de recursos simbólicos em transições desenvolvimentais, pela Psicologia Cultural do Desenvolvimento.

Palavras chave: autoetnografia, , transição para maternidade, cibercultura.

* Resumo submetido e aprovado para apresentação na sessão coordenada "Psicologia e Cultura", coordenada pela Profa. Elaine Rabinovich, na XL Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia.


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