sábado, 1 de agosto de 2009

Semana Mundial do Aleitamento Materno

Quando eu fiquei grávida, eu já tinha uma aproximação com o tema da amamentação porque acompanhei o doutorado de uma amiga, Gilza Sandre-Pereira, na França cuja tese foi “L'Anthropologie de l'allaitement maternel en France et au Brésil”.

Se nos meus primeiros contatos o interesse foi puramente intelectual, especialmente quando se tratava das aproximações psicanalíticas ao tema, após me descobrir grávida, meu interesse tornou-se outro. Agora, seria mãe e queria fazer o melhor para meu bebê. Eu já estava completamente convencida de que o aleitamento materno era o melhor que poderia oferecer para Bady em termos nutricionais, mas também proporcionaria o aconchego ou, como diria Winnicott (1975), uma profusão de sentimentos e sensações que favoreceria o apego.

Minhas leituras passaram a ser simplesmente técnicas: o valor nutricional, técnicas de amamentação, as vantagens e desvantagens da amamentação no seio, etc., etc. A Gilza foi minha principal fonte de informação nessa época.

Mas, no meio de tanta coisa que ela me mandou, as reflexões culturais, psicanalíticas e feministas sobre o tema foram me chamando muita atenção (mais tarde, eu também tive contato com estudos no campo da Sociologia que acabaram configurando meu campo de problematização sobre as práticas de aleitamento materno). Elas começaram a fazer muito sentido a partir das minhas participações nos fóruns de mães do Orkut, especialmente na Pediatria Radical.

Sem me estender em detalhes, eu tenho duas épocas distintas que marcam minha trajetória nesses fóruns. Elas foram separadas por um “orkuticídio”, e já explico porque.

Meu primeiro momento nesses fóruns foi a “adalene grávida"/"adalene recém-mãe”. Completamente tomada pela idéia de “fazer o melhor pro meu bebê”, eu me vi envolvida por um conjunto de práticas que configuram o universo bem particular da “maternidade natural” ou da “naturalização da maternidade”. Então, eu optei por fazer cama familiar, amamentar em livre demanda, dar colo, embalar, não ao choro para dormir, etc. Foi minha fase “militante” de todas essas práticas.

Como essas práticas são questionadas e estranhas à nossa sociedade ocidental (uso essa expressão – sociedade ocidental - mesmo sabendo de todos os questionamentos acadêmicos que ela envolve porque é uma noção popularmente compreendida), eu comecei a ler psicanálise, antropologia, etnopediatria, história, etc. para fundamentar meus argumentos.

Tanto essas minhas leituras quanto o movimento dos fóruns me fizeram abrir os olhos para outro lado da questão: a necessidade de se considerar a amamentação não apenas como um ato biologicamente induzido, mas também como socioculturalmente condicionado, impregnado de ideologias e de determinantes que resultam das condições concretas de vida.

A partir daí, eu comecei a mudar a defender o direito da mulher de escolher a forma como deve alimentar seu filho, muito embora continuasse acreditando nas vantagens do aleitamento materno e procurasse apoiar àquelas mães que desejavam continuar (com ou sem dificuldade). Logo, me envolvi numa discussão mais acalorada, fiquei chateada, o discurso ideológico caiu como um pedra na minha cabeça.

Meus ideais humanistas e crença na liberdade (mesmo que relativa) de escolha dos modos como conduzir a vida me levaram para uma crise de referência que culminou com um orkuticídio. Parece dramático, não? Mas, foi o efeito de me reconhecer como porta-voz de um discurso que aliena a mulher a um ideário que, em última análise, repete o discurso médico.

Percebi que o discurso de incentivo ao aleitamento materno era ambivalente e reproduz um discurso historicamente estabelecido que aproxima o aleitamento materno à “boa maternagem” - presente desde os primeiros discursos higienistas como assinala Sandre-Pereira (2006) e Sudo (2004).

A ambivalência, portanto, reside exatamente no fato de apoiar seus argumentos na ciência. Ou seja, ao mesmo tempo que afirma que a amamentação é um ato natural e contínuo à concepção, ao repetir o discurso médico, emprestando dele a investidura científica, desnaturaliza o aleitamento materno.

Toda essa construção resultou no meu retorno ao Orkut e marca meu segundo momento nos fóruns: agora, eu dirijo um olhar crítico às práticas discursivas sobre o aleitamento materno.

Esse olhar crítico, além disso, se apóia na idéia de que a maternidade para a mulher (distanciando-me completamente da idéia de continuidade entre o homem e os demais mamíferos) não se reduz à condição biológica de gestar, parir e amamentar. As práticas discursivas sobre a maternidade são atravessadas pelas condições históricas e culturais. Em outras palavras: a noção contemporânea de maternidade é historicamente estabelecida (Knibiehler, 2004) e culturalmente contextualizada (Pizzinato & Calesso-Moreira, 2007, p. 224-225). Ela indica um “conjunto de crenças e significados em permanente evolução"(Molina, 2006 como citado por Pizzinato & Calesso-Moreira, 2007, p.224) submetida às influências sociais e culturais .

Essa contextualização serve para assinalar que, nessa semana de blogagem comemorativa da Semana Mundial do Aleitamento Materno, eu vou transitar entre essas duas posições: a defesa e incentivo ao aleitamento materno e o olhar crítico sobre o discurso de incentivo ao aleitamento materno.

Para evitar malentendidos, quero deixar bem claro que eu não acredito na equação “boa maternagem” = aleitamento materno. Isso serve, especialmente, para colocar sob perspectiva o videoclip que segue. Para as mães que amamentaram, como eu, a mensagem dessa música faz todo sentido porque, tenho certeza, converge para nossas crenças. Para as mães que não amamentaram, ouçam-na como uma tradução de crenças particulares sobre a amamentação e maternidade.

O tipo de parto e a escolha pelo leite materno ou leite artificial não é qualificador da mãe.

Eu acredito na complexidade humana, na incidência da cultura e na sobredeterminação do inconsciente. Toda prática humana – ação e discurso - deve ser, portanto, contextualizada e colocada em suspenso pela impossibilidade de se revelar todas as intenções que a movem.

Ref. Bibliográficas:
Knibiehler, Y. e Neyrand, G.(org). (2004). Maternité et Parentalité. Paris: Éditions ENSP

Pizzinato, A. & Calesso-Moreira, M. (2007). Identidad, maternidad y feminilidad: retos de La contemporaneidad. PSICO, 38(1), pp.224-232. Recuperado em 04 de janeiro de 2008, de revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/2883/ 2178

Sandre-Pereira, Gilza(2006). Anthropologie de l´Allaitement Maternel en France et au Brésil. Tese de Doutorado em Anthropologie Sociale et Historique de l´Europe, École dês Hautes Études em Sciences Sociales, Université de Toulouse II – Le Mirais (tese não traduzida e não publicada)

Sudo I.(2004) Medicalização do corpo das mulheres: o caso da amamentação. Dissertação de mestrado Psicossociologia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Estudos Interdisciplinares de Comunidades e Ecologia Social. Recuperado em 20 de junho de 2008, do site do Instituto de Psicologia do Rio de Janeiro: www.psicologia.ufrj.br

Winnicott, D.W. (1975) O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago editora.



Nenhum comentário: