quinta-feira, 9 de julho de 2009

Revolução e Sentidos da Tecnologia

Nada encarna melhor o espírito da revolução do que as proezas da tecnologia. Na modernidade, a ciência e a técnica substituem a religião e Deus na construção do novo. A tecnologia aponta para o u-topos e o u-cronos alimentando sonhos. Com a revolução da informática, voltamos ao velho sonho de um mundo da comunicação livre, sem entraves, democrático, global. As redes sempre produzem este imaginário. Ecumênicas, elas fomentam a panacéia do estar-junto. Foi assim com o telégrafo e a estrada de ferro, com o rádio, o telefone e as autoestradas; com a TV, os aviões e a viagem à lua. É assim hoje com a internet.

A (revolução da) cibercultura implica novos sentidos da tecnologia. O paradigma informacional instaura a passagem do modo industrial para o eletrônico. O Gestell (Heidegger) é a essência da técnica moderna: dominação científica da natureza, onde esta torna-se fundo para a intervenção tecnocientífica. O novo paradigma traduz o mundo em dados binários, para posterior processamento em máquinas informacionais, os computadores. A dominação agora é digital. O sentido (histórico) é construído pela tradução da natureza na linguagem dos algoritmos, inserindo o domínio técnico na esfera do discurso e da comunicação. A revolução algorítmica transforma a sociedade industrial a parir de três pilares fundamentais: a rede (informação), a sociabilidade (comunicação) e a globalização (mundialização). Esse tripé desenha a relação política da revolução técnica atual. Esta aponta para a expansão da informatização do mundo, onde potência comunicativa e processamento de dados aumentarão.
Mas,para além do domínio técnico, e através dele, haveria uma revolução social em marcha. Hoje nada se compara à força transformadora da informatização da sociedade nos seus três princípios: a liberação da palavra (emissão), a conexão planetária e a reconfiguração sociocultural. A liberação da palavra traz conseqüências para a constituição da opinião e da esfera públicas. Podemos afirmar que a conversação mundial se ampliou com sistemas de comunicação transversais como blogs, microblogs, wikis e outras redes sociais. A liberação da emissão (antes controlada pelos mass media) é correlata à abertura dos sentidos. A transformação da esfera midiática se dá com o surgimento de funções conversacionais pós-massivas, permitindo, a qualquer pessoa, consumir, produzir e distribuir informação sem ter que movimentar grandes volumes financeiros ou pedir concessão a quem quer que seja (vejam o impacto do Twitter na atual tensão pós-eleições no Irã). A livre circulação da palavra se dá pela conexão mundial em redes (internet e celulares). A constituição dessa esfera pública mundial tem implicações políticas profundas. Aparece aqui o que sentimos no dia a dia: reconfiguração social, cultural e política do sistema infocomunicacional global, com novas mediações e agentes criando "revoluções" no centro da polis.
A relação entre a comunicação (a potência social) e a técnica (a potência da ação) está na base da discussão política, desde sempre. A técnica - a esfera da ação sobre o mundo, e a comunicação - o discurso como forma de virtualização dos sentidos, são dimensões essenciais do humano. Estas balizam as relações sociais, dimensionando a sua coesão e futuro. Para pensarmos a revolução da cibercultura é necessário partir do reconhecimento dos rumos da democracia (cada vez mais planetária) em uma sociedade construída, de agora em diante, sobre um outro modelo comunicacional: às funções massivas informacionais adicionam-se funções pós-massivas conversacionais. O impacto da nova convergência comunicação-tecnologia é gigantesco: liberação da emissão, crise das mediações, conexão bidirecional global, software e cultura "livre", redes sociais, mobilização e mobilidade.
Mas resta perguntar para onde essa revolução nos levará. Voltemos ao começo. O sentido aqui é outro; o de sua essência. A técnica moderna é ainda dominação científica da natureza e do outro. Mas, diferente das tecnologias do modelo industrial/massivo, que tinha por modo de ser a extração material e energética da natureza para produção de bens e difusão de informações centralizadas, parece que a essência da tecnologia digital é a tradução da natureza em bits para produção de formatos comunicativos e conversacionais globais. É o seu modo de ser, o seu princípio. Por esse prisma, o sentido da revolução técnica está aberto, sendo produzido neste exato momento no jogo das subjetividades em rede. Não é a primeira vez, certamente, mas podemos agora produzir sentido coletivamente, cooperativamente, no jogo das subjetividades abertas ao outro, para além das querelas identitárias, das fronteiras, das culturas, das religiões e dos territórios. Mas há aqui ainda uma utopia. Se houver uma revolução tecnológica, ela se dará na produção aberta e coletiva dos sentidos.

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