quinta-feira, 25 de junho de 2009

Outras palavras

É muito comum aparecer na Pediatria Radical reclamações sobre relatórios escolares, falas de professores, etc. Mães magoadas porque sentem que seus filhos são preteridos. Mães chateadas porque as professoras hipervalorizam comportamentos típicos da fase e trata isso como problema.

Recentemente, uma amiga, que é professora da educação infantil, me pediu ajuda pra escrever um relatório sobre um aluno que estava sendo encaminhado para avaliação psicológica. A criança apresenta comportamentos sexuais que estão perturbando o ambiente escolar: masturbação em sala, impulso pra manipular o corpo dos coleguinhas, etc. Segundo minha amiga, é muito intenso e me deu a impressão de ser um comportamento que ocupa todo o tempo da criança.

Essas duas situações sempre me suscitam questões e despertam conflitos antigos. Quando fazia trabalhei na Prefeitura de Artur Nogueira, mais de uma vez tive que lidar com casos semelhantes e, especialmente, com a demanda de relatório. Relatório para a escola, relatório para a justiça, relatório para outro profissional, relatório, relatório... Sempre precedido por uma avaliação psicodiagnóstico.

Confesso total inabilidade e simpatia em relação aos instrumentos de avaliação psicológica. Mas, precisava utilizá-los e fazia um esforço enorme para não cair na armadilha dos diagnósticos, dos rótulos técnicos, das expressões genéricas que não dizem nada ou dizem muito (nesse caso, pior porque a imprecisão deixa o terreno fértil para mais rótulos, para condutas preconceituosas, etc).

Em relação à minha amiga, disse que, no lugar dela, seria bem descritivia e evitaria qualquer utilização de rótulos ou expressões diagnóstica (comportamento masturbatório inadequado, compulsão sexual, etc., etc). Descreveria o contexto, uma situação e admitiria inabilidade para lidar com o caso. As minhas razões foram: 1) não enviesar a escuta clínica de quem atenderia a criança; 2) não oferecer para a família termos para nomear a criança e atribuir-lhe um lugar; 3) a marca que um relatório dessa natureza traz para a criança e seu impacto sobre a vida escolar.

Nos primeiros casos, das mães que se queixam sobre a escola, eu sempre tento refletir contextualizando os referenciais que a escola tem a partir dos quais aquele comportamento se torna inadequado. Quais os valores que guiam a prática escolar? Qual a noção de infância? E por aí vai.

Reconheço, contudo, como é difícil lidarmos com qualquer julgamento que recai sobre um filho porque, inevitavelmente, vemos nossa paternidade/maternidade sendo avaliada, julgada e aprovada/reprovada. Parece-me que para as mães isso é especialmente difícil. A cultura que aproxima a saúde mental da criança à capacidade da mãe maternar é o algoz da mãe.

Falar de algo que é pertinente a outra pessoa é fácil. O difícil é estarmos na situação e deslocarmos para olhar sob perspectiva, correndo o risco de sermos indulgentes conosco.

Recebi o primeiro relatório da Bady nessa nova escola. Essas questões todas voltaram e fiquei refletindo sobre as práticas domésticas, mas especialmente sobre o lugar difícil de elaborar um relatório e o lugar, também difícil, de lê-lo para além do texto, refletindo o que está escrito num contexto maior de valores, crenças, hábitos...enfim, da cultura que nos captura e, particularmente, das leituras individuais e diferenças que particularizam cada pessoa e cada sistema (no caso, escola e família). Mesmo que esse "particular" seja possível dentro de certo limite circunscrito pela cultura: sistema de significados e crenças compartilhados.

Um parêntesis: gosto muito de incorporar "crenças" nessa definição. Coloca em cena a contingencialidade, a incerteza e a imaterialidade das nossas explicações e justificativas para o que fazemos e como fazemos.
Voltando ao relatório da Bady, eis que leio:

"foi preciso investir nos procedimentos e atitudes, principalmente no quesito de trocar e esperar sua vez. Ainda é difícil para ela respeitar a vez do colega, em detrimento da sua e de cumprir alguns combinados grupais ".

Ei, caramba, ela tem apenas 3 anos!! Respeitar a vez do colega em detrimento da nossa, é difícil em qualquer idade! É preciso alguns anos de "adestramento social" ou de "emudecimento social" para fazermos isso, mesmo que por dentro fiquemos nos corroendo de raiva por não podermos fazer o que queremos. E haja sintoma para resolver isso!!

"Vez ou outra envolveu-se em conflitos por conta da disputa de espaço ou brinquedos. Nem sempre teve razão e, ao ser chamada atenção, demonstrou não gostar, contra-argumentando, mostrando pouca disponibilidade a acatar os combinados coletivos".

Mais uma vez: qual a criança não se envolve em conflitos disputando espaço e brinquedos? Ou, em outro nível, qual o ser humano que não vive esse conflito intensamente, necessário até para a sobrevivência?

No último trecho, eu vejo dois problemas:

1. "Contra-argumentando": essa característica dá muito trabalho pra quem cuida dela, mas é uma das características dela que mais gosto. Não quero que ela deixe de ser assim, invisto cotidianamente nisso, e sei que ela vai aprender com o amadurecimento o momento em que contra-argumentar não é o mais produtivo. Vai aprender que muitas vezes nem precisa contra-argumentar, basta fazer do seu próprio jeito. Isso também tem a ver com meu modo de lidar com ela: raramente, dou ordens ou combino alguma coisa sem explicar a razão e me assegurar de que ela tenha entendido. A maioria das coisas são negociadas aqui em casa. Sim, eu acredito que são pouquíssimas coisas na relação pais-filhos que precisem de regras rigídas, inegociáveis, etc. Até a hora pra dormir, deve ter uma margem de negociação (embora, eu tenha rotinas claras quanto ao banho e sono).

2. "Acatar os combinados coletivos": ela tem 3 anos. Acho que ainda está no processo de entender as regras compartilhadas, a transitar nos espaços coletivos, etc. Daí, minha pergunta: se faz parte do processo, qual a importância de que vire um ponto no relatório?

Outro trecho:

"Nas rodas, foi sempre possível vê-la colocar-se expondo sua opinião e conhecimentos, porém, nem sempre os fez de forma clara, pois a aluna articulou as palavras usando um timbre que se assemelha à uma fala menos amadurecida, nos momentos em que fez colocações e relatos, o que impediu uma imediata compreensão do que quer dizer, sendo necessário solicitar que repetisse o que queria dizer."

Por que uma pessoa usa estratégias pouco amadurecidas em algumas situações? No caso, pensei em algumas razões: 1º) poucos recusos pra lidar com algo conteúdo emocional que tenha irrompido no relato, acarretando num comportamento regressivo (acontece com todo ser humano); 2º) descompasso entre o que queria contar e os recursos lingüísticos para fazê-lo (eu sempre brigando com a idéia de que o desenvolvimento do pensamento acompanha o desenvolvimento da linguagem. eu sempre acho que o pensamento sofre com a imaturidade para articular determinadas palavras e com a relação tempo x aquisição lingüística, ou seja, o tempo de exposição à língua). Diante do desconforto que a incapacidade de dar cabo de uma tarefa, regrediu novamente.

Daí, pergunto de novo: qual o valor disso num relatório? É algo que fuja a normalidade?

Acho que antes de tudo: pra que serve um relatório na educação infantil? Se a maioria das coisas relatadas são transitórias, contingentes ao desenvolvimento da criança?

Lógico, os pais adoram ler coisas boas dos seus filhos, especialmente quando se reconhecem ou se vêem implicados. Eu não escapo disso!!
Volto amanhã pra fazer propaganda. O post ficou enorme. Além disso, tenho mais 1 hora de sono da filha pra estudar.
Antes disso, quero deixar registrado que estou extremamente satisfeita com a escola da Bady desde as condições físicas até em relação as pessoas que trabalham na escola. Desde o segurança que fica na porta até a coordenação pedagógica.
É apenas uma reflexão.


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