sexta-feira, 4 de maio de 2007

Para onde aponta seu interesse na amizade?

Eu, felizmente - ou infelizmente conforme o ponto de vista - acredito em amizades. Mas também não sou ingênua a ponto de achar que ela não está fundada sobre o interesse. A pergunta é que tipo de interesse se estamos falando?

Se você pensa no interesse utilitarista, está coberta de razão. Corra dela já! Mas, eu prefiro pensar no interesse ancorado na premissa dos três tempo da "dádiva", em Marcel Mauss.

O que Mauss destaca no ""Ensaio sobre o Dom" é que, na realidade humana concreta, as relações sociais não se mostram essencialmente marcadas pelo jogo de interesse, e formalizadas o contrato da lógica "tomá-lá-dá-cá". O que ele consegue perceber é que, em várias sociedades humanas, as ditas "arcaicas", as relações de troca escapam desse registro do contrato para se inserirem no da aliança. Em seus estudos antropológicos, ele percebe ainda mais: a aliança é uma dimensão essencialmente humana. A tríplice obrigação da dádiva (dar, receber e retribuir. Os três tempos) insere nesse contexto do cálculo, do interesse e do material, a obrigação, a espontaneidade e a solidariedade.

A dádiva, ou o dom, é o único caminho possível para explicar a gênese do vínculo social porque implica, obriga, a aposta na aliança e a confiança - nos tirando do estado de guerra iminente - mesmo diante da incerteza do retorno. Tudo é incondicional, contingencial, e a dádiva é o símbolo da generosidade incondicional porque não existe nada mais incerto do que o retorno.

Você poderia ainda perguntar: mas aguardar o "retorno" não significa aprisionar o "dar" na esfera do interesse? O que se propõe é substituir o interesse por si pelo interesse para com o outro.

Voltando ao pretexto da digressão, estamos presos e enredados novamente na imagem do homo economicus, a síntese da inversão dos valores da sociedade centrada no mercado, ou seja, da sociedade contemporânea. Para aquele, o cálculo e o valor do bem estão em primeiro plano, e suas relações de troca são regidas e garantidas por um contrato. Suas relações estão balizadas pelo cálculo do interesse, tornando o homem essencialmente egoísta, calculista e isolado.

Eu, feminilizando a expressão, sou uma mulher do meu tempo. Imbricada nessa história coletiva atual. Mas, acordo todos os dias querendo atravessar (no sentindo da frase "atravessar o fantasma", que supõe a dissolução deste) o interesse por si em direção ao interesse para com o outro. Tenho a dádiva maussiana como um dos meus princípios.

Falei como aprendiz de antrópologa. Vou refletir como aprendiz de psicanálise (e o inconsciente é um brincalhão, um Saci Pererê cheio de pegadinhas).

*Reflexões a partir de um comentário da minha amiga Tekka, vulgo Dra Relva.

2 comentários:

Dra disse...

Dally

1 - parabéns pelo blog

2 - tb sou leitora de Mauss, aliás há muito tempo e acho que vc devia postar o topico não só nos scraps mas tb na PR

3 - vale declaração de amor explícita, AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA? pois tá valendo: eu aqui confesso, ampla geral e irristritamente: AMO VC!

héber sales disse...

a idéia de cálculo remete a algo deliberado.

pode não ser necessariamente o caso.

nossa dependência para com o outro, sobretudo em nossa vontade de poder, pode levar ao cálculo inconsciente.

interesse para com o outro?... em que nos gratifica isso? há que pulsão isso corresponde?

sei não...

a dádiva e a contra-dádiva fundam o social e o simbólico, sem dúvida, mas o social e o simbólico estão imbricados com a questão do poder, e, conseqüentemente, do interesse (não necessariamente material, muito pelo contrário).

bjs